quinta-feira, 14 de abril de 2011



em minha casa, sempre teve imagens de santos, velas acesas, palha benta queimando em dias de chuva forte... minha mãe rezava ajoelhada, fervorosamente, às vezes chorando, quase sempre pedindo alguma coisa pra algum de nós... ela me ensinou a rezar antes de dormir, com deus me deito, com deus me levanto... recitva preces e rogos intermináveis, pelas pessoas, pelas almas, toda noite igual... cresci olhando e sendo olhada por tantas imagens... minha fé era o medo de pecar... a onipresença, a onisciência, a onipotência... deus estava em todo lugar, via tudo que eu fazia de errado e, com certeza, me puniria... quando fui para o catecismo, conheci o bondoso deus do evangelho, que acolhia as criancinhas... minha fé passou a ser a certeza do perdão... mas aos poucos fui me incomodando com o paradoxo da confissão... arrepender-se, confessar, ser perdoado e... pecar de novo... fui percebendo que por mais sincero que fosse meu arrependimento, sempre cometia os mesmos pecados... pecados de criança, fiz malcriação pra minha mãe, briguei com meus irmãos, menti pra minha professora... não entendia a expressão para não mais pecar... na adolescência passei a participar ativamente de uma igreja católica... minha fé era a esperança de conviver com pessoas que se aproximavam da imagem e semelhança de cristo... eu confiava... me decepcionei... não é fácil ser deus... minha mãe morreu... eu não sabia o que fazer com todas aquelas imagens de santos, com a palha benta de dentro das gavetas, com as velas da vigília pascal guardadas nos armários, com as orações que não asseguraram a presença da minha mãe na minha vida, para ver os netos, para eu não ficar só... deus perdeu a sua onipresença, ele não estava ali... perdeu sua onisciência, ele não sabia da minha dor... perdeu sua onipotência, não impediu a morte da minha mãe... e eu perdia fé... e fiquei sem ela durante um bom tempo, até o vazio quase me enlouquecer... foi aí que o senti de novo... não sei explicar como, não sei dizer onde, mas acho que sei o porquê... deus não é só o castigo, nem só o perdão... ele está no acolhimento e também está na decepção... ele simplesmente É, como sempre foi o tempo todo... percebi isso quando compreendi a minha dor e o significado que ela teve na minha vida, o que eu era e o que me tornei, o que eu aprendi com a minha fé e com a falta dela... somos nós que nos castigamos ou perdoamos, que nos aproximamos ou afastamos, que vivemos em guerra ou na esperança... a minha busca pela fé me diz que ela existe e está em algum lugar em mim, embora eu não saiba mais, nem queira, explicá-la... não sei dizer no que acredito ou no que deixo de acreditar, o que é razão e o que deixa de ser... mas resgatei os conceitos de onisciência, de onipresença e de onipotência... hoje, de uma forma diferente de antes, sei que deus está em tudo, tudo sabe e tudo pode...
(Ana)


Minha fé!

Nasci numa família católica, mas com uma mãe kardecista. Tudo era diferente na minha casa, as explicações para o sofrimento, o modo de ver a vida. E o que era herança religiosa, dentro da minha família toda católica, era visto como escolha dentro do meu lar; cada um poderia seguir a crença que sentia dentro da alma.
Fui batizada, fui consagrada, crismada, casei e batizei minha filha dentro do catolicismo. Mas, o lado paterno da família era presbiteriana, a família da minha madrasta da Assembléia de Deus. Você imagina o que é crescer ouvindo que o seu hábito de tomar restinhos de café dos copos deixados pelos adultos, tinha haver com sua entidade de pretos velhos? Esta era a opinião da Dona Maria, uma empregada negra que tínhamos e que gostava muito de mim.
Imagine então ter um irmão perturbado por espíritos, que teve que ser batizado duas vezes para que a casa pudesse dormir. Imagine ainda o que é pra uma criança carioca com fé em Cosme e Damião ora poder comer seus doces distribuídos pelas ruas do Rio, enquanto estava com a minha mãe e ora não poder comê-los quando estava na casa do meu pai, pois pra esposa dele, aquilo tudo era macumba.
Apesar de até os dezenove anos eu me considerar católica, os livros de Kardec e Chico Xavier, faziam parte da minha rotina de leitura. Livros como as duas vidas de Audrey Rose, a Erva do Diabo de Castanheda. É lógico que eu não seguiria um caminho único. Fui experimentando de tudo. E até hoje é assim, gosto de saber de todas as religiões, hoje estou tentando aprender sobre a cabala, apesar de estar freqüentando a Umbanda.
A certa altura da minha vida, percebi que coisas “estranhas” aconteciam comigo, sonhos premonitórios, sentia cheiros que outras pessoas não sentiam, de flores, de éter, de podre, de bebida e recebi o rótulo de médium.
Como as leituras diárias já me familiarizaram com o termo, não achava nada disto estranho; até que fui pra faculdade de Psicologia. E de repente tudo o que eu sentia tinha um rótulo de doença mental. Abandonei minha fé, me afastei do centro espírita, porque o psiquiatra que dava aula pra mim, nem sequer respondia a temas voltados a religião e seus mistérios. Sentia-me inadequada.
Eu já estava no desenvolvimento mediúnico quando tive um problema de saúde e não me conformei com o “abandono” de Deus. Pensei, sou uma filha que serve a seu rebanho, como pode me deixar adoecer, como ninguém aqui no centro, reparou o meu sofrimento físico? E assim, me afastei.
Muito tempo depois, voltei a ter “sonhos”estranhos, e novamente me direcionei ao lugar onde eu sempre fui acolhida e vista como normal. Deixei minha fé de lado, como uma filha rebelde que fui de pais encarnados e de Deus. Sempre contestei muitas coisas e um dia chegou à hora de contestar a minha fé também. Só que Deus tinha planos diferentes pra mim, foi me mostrando que as visões acordadas que tinha eram reais, foi confirmando que a minha “diferença” não era uma doença ou um mundo imaginário. Que o meu chacoalhar resultava em coisas boas pra mim e para os que me cercavam.
Comecei a ver que pessoas amigas, me procuravam para receber uma palavra de consolo, um passe, uma “benzidinha” que minhas orientações e orações acalmavam algumas pessoas. Lógico que uma parte disto, vem da minha fé e outra da fé de quem me procura, mas é estranho ainda hoje sentir o sofrimento das pessoas que estão longe de mim, até em outros estados do país e confirmar com elas que elas estavam em momentos difíceis e eu captei. É difícil sentir meu corpo envergar e ver um lado de um mundo que a maioria das pessoas não vêem, não sentem e até desconhecem.
Senti medo da minha fé muitas vezes na vida, senti medo de ser rotulada de maluca, me escondi dos preceitos que aprendi, mas sei que o consolo que tenho é e sempre será a fé que me sustenta. Nos momentos de grande aflição, ainda pego meu terço de lágrimas e rezo, rezo de tudo, o Credo, a Ave Maria, Pai Nosso, a Prece de Cáritas, rezo a oração que um benzedor me ensinou na Bahia, imagino símbolos da cabala e meu coração recebe consolo e as respostas surgem em mensagens na tevê, no e-mail ou em ligações telefônicas.
De frente a minha cama, tenho uma imagem de São Jorge o padroeiro do Rio de Janeiro e aquele que sempre me consolou, sempre falei, valei-me meu São Jorge nos momentos difíceis, sempre pedi a proteção de seu escudo e espada pra me defender. Ainda é o meu santo de preferência, hoje ele recebe o nome de Ogun onde eu freqüento, mas pra mim, é meu santinho, meu protetor aquele que sei que me protege junto com Deus e sua tropa, Jesus, a virgem Maria, e toda a falange de espíritos do bem que me cercam.
Minha fé me conduz, me faz ser saudável, apesar de um dia eu ter achado que era doida mesmo. Sigo por este caminho e todas as noites rezo pra minha filha e ela repete pra mim, boa noite! Dorme com os anjos,com Deus e sonhe comigo
(Aline)



Minha fé tem a forma de um ponto de interrogação. Coisa mais estranha para aquilo, que por princípio, não admite dúvidas, mas assim é. Um quebra cabeças desses intermináveis, feito de muitas buscas, decpções. aprendizado. Intermináveis discussões. Todos os manhãs, para conseguir levantar, apanho um punhado de pecinhas: fé no meu trabalho, no artigo que li na véspera, no sol dos domingos, fim de tarde nas sextas. No futuro da humanidade, quem tem filhos tem fé e eu tive dois. De que tudo tudo vai dar pé, a fé não costuma falhar. Vou montando assim meu quebra cabeça, de forma meio aleatória. As vezes começo a ver algum desenho, olho uma parte pequena e acho que entendi tudo, quando vejo já desmanchei sem querer o trabalho e tenho que começar tudo de novo, tento um jeito diferente: fé no santo, nas estrelas , no amor para sempre, Se nenhum vento soprar eu mesmo desmancho tudo, não estou preparada para o fim do jogo, no fundo gosto de recomeçar. Falta Deus, não é? Escuto isso quase desde que nasci. Quem sabe um dia, se ele deixar, encontro essa pecinha perdida e não a largo mais. Não tentem me converter, mais do que eu mesma tentei impossível. Aceitem minhas dúvidas e que todos os seres sejam felizes!
(Neysi)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Tomates e eu...


Não sei onde, nem quando e nem porque deixei de gostar de tomates. Fui largando eles bem longe de mim, e quando vi, não suportava mais a tal fruta vermelha. Nem sequer o molho deles em pizzas. De repente me vi obrigada a dar um jeito em uma comida que tinha que ser feita rapidamente, piquei cebola, tomates joguei no azeite com folhas de manjericão; num macarrão que deveria ser comido em quinze minutos.
E o perfume que invadiu minha casa e tomou de assalto meu olfato, era maravilhoso. O gosto parecia de algo simplesmente divino. Quantos anos perdi longe da bolota vermelha? Não sei responder!
Fiquei aqui pensando em quantas coisas vamos deixando de lado e que elas podem simplesmente serem boas e a gente não se dar mais conta disto.
Porque não pintei mais nenhum quadro? Porque deixamos de escrever pro blog, de enviar nossos textos umas pras outras? Porque coisas triviais perdem o sentido e quando percebemos, deixamos algo bom de lado. Porque não fui mais até a janela que tenho aqui, que dá pra serra e olhei através dela? Porque o tucano bicou minha janela? Porque apesar de ter atravessado o verão, parece que hibernei no inverno?
Quero acordar, retomar minhas aventuras à óleo, meus textos, meu olhar através das janelas, dos textos da “diretoria”, me ver através do outro e olhar a fruta vermelha e sentir seu sabor.
Onde foi que deixei de acompanhar a modernidade, porque comecei a ficar de olho só no passado, nas velhas músicas conhecidas e deixei de ouvir as novidades do rádio?
Parece que estou saindo de um estado de coma. Precisando ver o mundo de novo. ‎"meu tempo é hoje. Não vivo do passado, mas o passado vive em mim..." vi o Paulinho da Viola falando isto, e novamente percebi que queria falar como ele, sobre mim, sobre minha vida.
Como pode alguém da rua, falar aquilo que a gente sente, melhor que a gente e sem nem mesmo nos conhecer.
Acorda diretoriaaaaaaaaaaaa! Vamos de novo, juntas experimentar tomates?
(Aline)


Tomates me lembram a infância. Abrir a geladeira e comer puro, levando bronca da avó, muito ácido, vai estragar o estômago! Minha avó tinha regra para tudo, coisas que não se devem fazer à noite, outras durante o dia. Coisas que não combinam. fazem mal, beber água gelada com o corpo quente, tomar vento depois de sair do banho, banho depois de comer. Meninas não sobem no muro nem riem alto, fica feio. Tem certas palavras que não se falam nem de brincadeira, dão má sorte (azar nem pensar ,bata na madeira) . E ia ficando a idéia que a vida era fácil, só seguir os conselhos e não deixar em hipotese alguma os chinelos virados ou a bolsa no chão.
Muita coisa que eu acreditava nem lembro mais, outras que eu gostava deixei de gostar, descobri muita coisa diferente ainda enquanto morava na casa velha da Vila. Falta de umas boas chineladas, diria a minha avó, que no entanto nunca me bateu.
Nunca deixei de buscar o novo. Sou inquieta desde sempre, não sei se é virtude ou defeito.Mas tem coisa que a gente simplesmente esquece e não é porque sejam ruins. Deixam de fazer parte do nosso momento tragadas pela rotina, pelos compromissos ou pelo desânimo. E eu que gostava tanto de desenhar, acabava com os cadernos bem antes do tempo, nunca mais peguei num lápis. E o violão? Tem uma tela vazia me esperando dentro do armário, as tintas devem ter secado há muito tempo, já devo até ter jogado fora. Agora o blog, esse eu nem sei por que não continuamos, afinal estamos sempre aqui na frente do teclado. Será que já dissemos tudo? Lembrei agora de um texto da Cecília, acho que não escreveria nada melhor:


A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles
(Neysi)



também tenho me perguntado porque parei de escrever... por mais que eu invente desculpas, não há uma resposta... foi a falta de tempo? tenho hoje o mesmo que tinha antes... foi a cura das angústias? bem que eu queria... foi a mudança de fase na vida... eu mudei mesmo de fase? de qual pra qual?... algumas pessoas têm me dito que ando mais tranquila e que isso até se reflete no meu semblante... me olho no espelho e me pergunto como seria o meu rosto antes então... não vejo a tranquilidade que as pessoas veem, mas sei que de alguma forma ela está lá... voltei a minha mente pra outros pensamentos, estão menos em mim em mais no que o mundo tem a me oferecer... tem tanta coisa pra eu conhecer, tantos sabores diferentes para experimentar... falando em tomate, hoje em dia sou quase vegetariana, como muito pouca carne e por incrível que pareça, não sinto falta como das primeiras vezes... mas ainda gosto e não pretendo parar de comer de todo, mas quero comer só o que eu gosto, não por simples hábito... mudei... mudei alguns hábitos na minha vida... coisa estranha não fazer o que sempre se fez... coisa estranha perceber que não se morre ao tomar água gelada com o corpo quente... é quase reviver a cada copo d'água... e eu que não gostava de cenoura, carne-seca, abóbora, beterraba, acabei redescobrindo possibilidades e isso é assunto pra outro texto, pra esse não ficar longo demais... e ainda não sei explicar porque parei de escrever, rs... vou deixar esse assunto pra outro texto também, assim, quem sabe, a produção não aumenta...
(Ana)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010



O principe de hoje é o sapo de amanhã. Como dizia meu amigo Valtinho, tudo caminha inexoravelmente para a deterioração. O asco alheio provocado pelas rugas, verrugas, lentidão, chegará mais cedo ou mais tarde. Mesmo assim, de vez em quando, topamos com alguém que acha que tem o dom da transmutação, o poder de transformar vidas que se acham simples demais em vidas interessantes. Mas a nossa magia é pura perfumaria e ilusão. Não transmutamos nem o nosso dia... quanto mais a vida alheia. Muitas vezes damos a entender que existe uma nobreza aflorada esperando a chegada da sapa ideal, a real merecedora das gentilezas e paparicos principescos. Certa vez li um livro chamado Bufo&Spalanzanni, do Ruben Fonseca; no inicio do livro contava-se a experiencia de um padre cientista que fazia uma experiencia com um tipo de sapo, o Bufo Marinus. Ele descobriu que o instinto de sexual do bicho é tão forte que quando ele agarra a fêmea para copular não larga até que tenha terminado o ato, seja porque motivo for. (Todos já vimos em ilustrações como os sapos se parecem com seres humanos na hora de copular, o que não deixa de ser um engano divertido: na verdade o sapo agarra a sapa por detras e, naquela excitação, a fêmea libera um cordão de ovulos imenso; daí pra frente o sapo dá um banho de esperma naqueles ovinhos todos.) O cientista, em nome da ciencia, resolve testar o instinto dessa especie e deixa-o junto com uma femea para copular. Na hora do ato em si ele vem com um maçarico e queima a perna do bicho; e o sapo nem aí. depois de consumada a situação o sapo larga a "cintura" da femea e morre, mais ou menos carbonizado. Tudo em nome da ciencia.
Acho que, em muitas noites, sonhamos com alguem que nos transforme de maneira a perder essa obstinação sexual de sapo; alguem que nos tome pela mão e nos mostre o principe guardado, submerso na lagoa escura e suja.
(Jufar Esteves)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010



O Sapo e a Sapa.

Quando eu era criança, eu ouvia pequenas histórias de princesas e sapos. Hoje já adulta fico pensando que eu sou uma Sapa, não uma rã ou perereca; uma sapa mesmo. Sabe me sinto como se estivesse sentada na beira da fonte, com meu sapo ao lado. Ele esperando que eu me torne uma princesa e eu que ele vire um príncipe, mas ambos sendo apenas sapo e sapa.
Os beiços dos sapos se tocam, mas não há transformação alguma, nem eu viro a princesa dos sonhos e nem ele deixa de ser sapo.
Vou vendo as borboletas sobrevoando, faceiras a voar por perto, acho que talvez elas também esperem que nós por encanto nos transformemos, mas se um dia fomos encantados já esquecemos o segredo que nos transformaria novamente em seres nobres. Ficamos coaxando feito sapo mesmo, sem entendermos o tal segredo, sem entendermos o que cada um de nós fala.
O amor está ali, sentindo a angústia de não conseguir ser como nos contos, sentindo a brisa, o sol e tendo que se virar sendo sapos, sem conseguir mudar a realidade que sentimos a nosso redor.
Será que vale a pena ser princesa? Nunca fui! Sempre fui meio ogro, meio sapo, um bicho estranho que não se enquadra nos parâmetros da realidade sublime.
Todo mundo fica esperando que eu me torne a princesa, eu também ainda espero isto, mas acho que não tenho vocação pra princesa não; minhas mãos estão secas pelas tarefas diárias da casa, não há creme que as façam macias como as das princesas.
Tento transformar minha história de vida em conto de fadas; tenho até uma trajetória que poderia ser de gata borralheira, mas que ficou bem longe, lá no passado, mas princesa? Não, eu acho que não vai passar de desejo, de sonhos de uma menina que às vezes da às caras dentro desta sapa aqui.
Queria um pozinho mágico de pirlim pim pim, para transformar a dura realidade de viver na lagoa fria como uma sapa, que sonha em ser princesa.
(Aline)




Tudo muda sempre para melhor. Na hora H aparece a fada madrinha, o príncipe encantado, até o patinho esquisito vira cisne, a fera vira príncipe, por que então isso não acontece com ela? Até aquela lagarta estúpida virou borboleta,anda voando por aí magérrima, com aquelas asas super fashion. O quê? Já morreu? Tão nova coitada! Bem feito!Quem manda ser tão exibida. Um dia isso também vai acontecer com ela,a Dona Sapa.
O quê? Morrer? Claro que não seu distraído, virar princesa! Não contaram para você? Príncipes beijam sapas e elas se transformam em princesas! O quê? É ao contrário? Deixa de ser estúpido, seu sapo verrugento! Que princesa ia querer beijar você!
Princesas são finas, delicadas, sentem uma ervilha debaixo de mil colchões. Por acaso iam querer beijar você?
E Dona Sapa esperava na beira da fonte, comendo mosquitos enquantoobservava ao longe as luzes do castelo.
Seu Sapo também reclamava, onde já se viu, uma sapa gorda que só,querendo que um príncipe a beije. Príncipe não está nem aí para isso,príncipe quer aventura,conquista, entendeu gorducha? É assim que funciona: a gente salva a donzela da torre, casa com ela, bota ela noutra torre e vamos procurar outra princesa...
A gente quem seu besta? Por acaso alguma princesa já beijou você,ô Cururu barrigudo?
Enquanto isso, nos aposentos reais, príncipe e princesa fingem que dormem. Ouvem o barulho dos sapos e ficam pensando como deve ser boa a vida na Sapolândia.
(Neysi)




vivi algum tempo acreditando em contos de fadas, depois achei que tudo era bobagem que não acontecia na vida real... até ser beijada por um príncipe e minha vida se transformou... não foi um príncipe tradicional, não me jurou amor eterno e o que teve de verdadeiro entre a gente foi realmente o beijo ... e foi só... e foi tudo...sem promessas ou compromissos,mas com todas as sensações que um beijo transformador poderia trazer, mais do que o suficiente pra encher de magia a minha vida novamente... voltei acreditar no impossível, ou melhor, voltei a acreditar em mim mesma... se estava sapa eu não sei dizer, mas que me transformei após aquele beijo, sem dúvida... não em princesa, mas em rainha, rainha da minha própria vida... sem castelos ou coroas, riquezas ou criados, vestidos ou jóias... não fiquei mais linda ou menos feia, mas me senti em muitos anos eu mesma... capaz de ser e de viver além do que era esperado, pelos outros e por mim... capaz de me arriscar... de me oferecer ao beijo transformador e de me permitir todas as transformações que me eram possíveis e nas quais eu não acreditava que poderiam ser reais... me tornei capaz de sentir e passei a dar valor a isso, mesmo que às vezes o sentimento seja a tristeza... é melhor que não sentir nada... ainda tenho meus dias de sapa, quem não os tem? mas não deixei de acreditar que transformações são possíveis e hoje dependo muito menos de príncipes pra me ensinarem isso... a maior transformação é aquela que operamos dentro de nós mesmos, beijando a nossa própria alma soberana...
alma soberana,mas por tantas vezes,adormecida... hoje, eu vivo no limbo, entre a saparia e a realeza, vivo num mundo muito mais duro, o de gente comum, cuja realidade não se imagina, se vive e pronto, tentando fazer o que é certo... como em todo conto de fadas, há o lado da princesa, o lado do sapo e o lado de quem simplesmente lê a história... esse eu sei que eu não quero mais, agora estou do lado de quem escreve, rs... e a magia da transformação? que fique nos olhos de quem observa e nos gestos de quem a realiza...
(Ana)


Quando eu estiver velhinha!

Fico imaginando os anos passando e eu já de cabelos bem brancos. É gostoso imaginar como será minha nova vida velha.
Eu acredito que meus cabelos não serão tinturados nunca! Vou assumí-los com muito orgulho. A pele macia e com marcas de expressão acentuadas pelos anos; vão dar mais veracidade as coisas que eu sinto e que eu falo.
Serei o tipo de senhora sábia que as pessoas vêm conversar, desabafar e pedir conselhos.
Acredito que no meu jardim da vida, vai ter um grande pé de arruda, e como uma velha senhora das antigas, usarei alguns galhinhos para benzer as pessoas que tiverem fé! Na horta da minha casa terá capim-limão pro chá da tarde que costumarei fazer, enquanto eu admiro o sol que se põe por mais um dia.
Meus netos vão gostar de me visitar, a avó que conta lindas histórias, sentará em uma poltrona confortável e com eles aos seus pés no chão, atentos a todos os detalhes dos contos, sempre a sorrir e esperar cada aventura que virá.
Os bolos serão os mais gostosos, e cada um poderá repartir da sua vida o que bem quiser. Avós são feitas para isto, acolher!
Meu velho companheiro estará fazendo alguma coisa que para ele será importante e sua companhia será tão agradável como observar as nuvens.
Minha casa terá cheiro de rosas, de flores que estarão por todos os cantos. E eu nos meus momentos de solidão estarei acompanhada de música, livros e quadros a serem pintados. Eles serão o retrato de uma vida doce e boa, onde todos os fatos foram importantes.
Cada lembrança trará um amigo de volta, com seus sorrisos e encontros bons que tivemos. Acredito que meu sorriso será ainda mais doce do que foi na juventude e que meu humor encantará a todos que me cercarem.
À noite! Darei uma volta a pé com meu companheiro, vamos recordar tudo o que vivemos e saberei que fiz tudo, vivi tudo que foi possível, e que tive uma vida que valeu a pena ser recordada.
(Aline)



When Iget older...

É, eu achava que seria assim, a idade chegando, a calma, a sabedoria e, claro, os cabelos brancos. Branquinhos mesmo, um corte comportado,quem sabe um coque. Só não valeriam aqueles cabelos azuis ou lilás quealgumas senhoras usavam quando eu era adolescente e olha que não pertenciam a nenhuma tribo moderninha. Seriam brancos mesmo. Mas quando os fios brancos tornaram-se indisfarçáveis não tive dúvida:tintura neles. Pode ser que daqui a vinte anos, se ainda estiver por aqui, eu mude de idéia. Mas até acho bonito os branquinhos, só que nos outros.
Quanto às rugas, nunca me preocupei com elas, não sei se um dia me incomodarão.Velha, eu? Claro que esse dia está muito longe...
Mas gosto de imaginar que terei uma varanda com plantas, uma sala bem iluminada, cheiro de mar, canto de passarinho. Um calçadão para caminhar sem medo, amigos, netos, talvez eu finalmente aprenda a fazer bolos, talvez aprenda até a dançar. Conhecer o mundo, quem sabe?Tocar piano, viver em lua de mel. Tudo bem crianças, papai e mamãe não fazem sexo, vovô e vovó então nem se fala. Não é assim que vocês pensam? Eu também pensava muitas coisas sobre amadurecer,envelhecer, mas descobri que não eram verdade, a gente por dentro não muda quase nada. Pena mudarmos tanto por fora, mas isso talvez seja questão de ajustar o olhar, mudar um pouco o foco. Aliás, não tenhorugas, mas agora uso óculos...
(Neysi)



não imagino a minha velhice porque sempre achei que não chegaria até ela... um dia, quando criança, olhei pela janela, meus irmãos estavam falando alguma coisa sobre o futuro, que eu não me lembro mais o que era, e alguma coisa dentro de mim me disse que não veria acontecer porque morreria cedo... essa idéia não saiu mais da minha mente, me acostumei a pensar nisso e deixei de me preocupar com a velhice... depois de alguns anos, me dei conta que não envelhecer significaria morrer jovem e aí, a idéia de não envelhecer passou a ser mais pesada do que a de ficar velhinha... não envelhecer significaria não ter tempo pra realizar tudo que foi sonhado, não ficar ao lado das pessoas que se ama, não criar os filhos... depois que fiquei órfã, então, a idéia de não criar os filhos passou a incomodar ainda mais... passei a pensar até que idade os acompanharia, se daria tempo de prepará-los pra vida, se eles se lembrariam de mim e se saberiam do grande amor que sinto por eles... depois de um certo tempo fui deixando de me incomodar com isso também... nunca se prepara alguém pra vida totalmente, tudo que é vivido intensamente nos marca para sempre e o amor... esse, a cada beijo de boa noite, a cada abraço apertado, a cada mão dada na rua, transparece com tanta clareza que tenho a certeza que eles sabem, não depois da minha morte,mas hoje, do grande amor que sinto por eles... e aí, deixa o tempo passar, deixa ele deixar suas marcas... e ele já as tem deixado em mim... se isso for envelhecer, já estou envelhecendo, mais do que pensei que fosse... e não é ruim não, nem é tão diferente quanto ser jovem, é apenas estar viva... e me sinto viva, pra algumas coisas, uma criança brincalhona, pra outras uma adolescente em descoberta,algumas vezes jovem como nunca, outras uma adulta responsável e de vez em quando, uma velha rabugenta... e acho que é assim, somos todas em uma só... envelhecendo enquanto se aprende a viver...
(Ana)

sábado, 20 de junho de 2009

Medo, Vida, Dúvidas

sabe aquela história de ter medo do medo que dá? pois é... a vida é mesmo assustadora ou eu que me amedronto à toa? não sei... e por que é que às vezes o medo paralisa e em outras ele impulsiona ao impossível?... que coisa de tanta pergunta sobre medo, tanto medo de ter medo, tanto medo de ter coragem... na dúvida, faz-se o quê?... fica-se parado no mesmo lugar ou se caminha sem rumo, sem prumo, sem certezas do que vai acontecer, só pra ver no que vai dar?... ai, meu deus que tanta dúvida, que tanto medo , que tanto não saber o que fazer... e a vida? que assusta, assusta mesmo... mas passa... passa o susto e passa a vida se a gente não vive... e a dúvida? a dúvida dá medo... mas também passa, passa o dúvida e passa o tempo de fazer sem que nada se faça... e o medo? o medo dá dúvida... que pode até acabar, mas o medo, ah, esse nunca passa, pois se tem medo até a morte, se tem medo até da morte...
(Ana)

Coragem

É um estigma meu! Minha marca pessoal, a vida me deu apenas uma escolha, e foi viver e encarar minhas vontades e os meus desejos. Nunca me acovardei para os meus sonhos. Nunca coloquei a culpa na situação e nem nas pessoas.
Segui em frente, mesmo que todos a minha volta falassem que não era prudente trilhar os caminhos escolhidos. Colhi todos os louros e todas as pedras que me foram dadas pela vida.
E isto desde muito pequena; aos cinco anos me trocaram de casa e de família, de cidade, aos sete anos de idade, eu escolhi trocar de casa e de família novamente; se não me sentia acolhida pelas pessoas, não tinha medo de renunciar a elas e ao tipo de amor que elas queriam ou podiam me dar. Aos dez anos estava de volta ao Rio na casa do meu pai, e escolhi novamente que aquele caminho não era o meu, voltei para casa da minha mãe. Aos 12 anos a vida deu nova volta e tive que voltar a morar com meu pai novamente; desta vez a escolha não foi minha. Aos dezessete anos eu escolhi morar com minha avó, mas meu coração queria voar ainda mais alto, em busca da felicidade e novamente tomei outro caminho. Segui pra São Paulo.
Nunca deixei que nada e nem ninguém me impedissem de ser feliz e de levar minha vida como eu desejava. Nunca me acovardei para nada. Não precisei dar desculpas para os caminhos que eu desejava trilhar, mas não tinha força. Se eu queria seguir minha vida, e ela me pertencia, nada podia me deter.
Sou feliz! Sou corajosa! Todas as minhas escolhas resultaram em ótimas experiências. E posso falar e ensinar as pessoas, que basta ter vontade e coragem para ser feliz!
Desculpas, covardia, não fazem parte de mim e nem dos caminhos que sigo.
(Aline)
Dúvidas

Era uma vez um rapaz que não conhecia o medo e saiu pelo mundo tentando descobrir do que se tratava. Mas não era uma pessoa de verdade, era um personagem dos contos de Grimm. De verdade mesmo não tem quem não saiba o que é aquele frio na barriga, o desconforto que nos faz querer fugir, lutar ou quem sabe, fingir de morto. Mas e a tal da coragem? Eu achava que sabia o que era, claro que sabia, é aquela coisa do cara que entra no fogo para salvar a criancinha, que fica na frente do tanque de guerra, que faz a diferença entre o homem comum e o herói. Eu achava que sabia, mas tenho andado tão confusa que não tenho mais certeza.de nada.
Há quem diga que quem tem coragem age com o coração, faz sentido, coração e coragem são palavras aparentadas. Mas quando se age pelo senso de dever ou justiça, mesmo quando o coração pede outra coisa, não tem coragem também? Mais coragem talvez? Tem que se ter coragem para recomeçar a vida, o amor, a carreira. Mas e para prosseguir, permanecer, estar ali onde se estava antes, não precisa coragem também? Quem parte é mais corajoso do que quem fica? Quem briga é mais corajoso do que quem concilia? Para fugir não precisa coragem? E para fingir de morto? As vezes sonho que preciso ficar bem quieta, morta, enquanto algum perigo, um cão feroz por exemplo, passa bem perto, muito perto. É terrível, nunca consigo, sempre me dou mal nesse sonho por puro medo.É, acho que coragem, certezas, definições não são meu forte. Talvez eu só entenda um pouco é do medo, e daquilo que se faz com ele.
(Neysi)

quinta-feira, 14 de maio de 2009


Minha filha Luiza ,de 4 anos e meio, esperta como é, está sempre a ouvir , prestar atenção, e assimilar aquilo que os adultos à sua volta dizem. Outro dia surpreendeu-me com a pergunta :
_ Mamãe, nós somos pobres?
_ Sim, meu amor, em termos de dinheiro, sim. _respondi_ Mas filha, se quer mesmo saber se somos pobres, deve entender que não é só o dinheiro que significa se somos pobres ou ricos. Veja, não podemos comprar tudo aquilo que queremos, e papai trabalha muito para nos dar o máximo de conforto que ele pode. Você e a Samara têm seus brinquedos, suas roupas, bons médicos à disposição sempre que precisamos. Têm tudo aquilo de que necessitam. Mas, meu amor, acima de tudo isso, temos uns aos outros, estamos todos vivos, temos saúde, alimento em nossa mesa, alegria, amor, nossa casa, nossos cãezinhos, uma cama quentinha nos dias de frio e Papai do céu cuidando de nós. Então, vendo por esse lado, não temos muito dinheiro, mas de certa forma somos ricos!
_ Entendi -disse ela-. Vovô me disse q existem crianças que juntam grãozinhos de arroz ou feijão , sentem fome e não têm nada para comer. Disse também que algumas tem dinheiro mas não podem correr na grama verde como eu, usando minhas asinhas de borboleta de faz - de-conta.Mas mamãe, eu queria taaaaaanto um carro como o que tínhamos emprestado esses dias, com ventinho e ar quente!
_ Quem sabe um dia!- respondi- E você poderá ter o seu próprio carro, se for obediente, ouvir o papai e a mamãe e estudar bastante!
Depois dessa nossa pequena conversa, pus-me a pensar....com essa idade eu nem pensava em carros! Acho bom q minhas filhas tenham seus sonhos, q elas aprendam desde cedo que precisam lutar por aquilo que querem , ao invés de esperar que eu e meu marido possamos dar-lhes tudo de mão beijada. Mas , por hora, entendi que depende mais de mim do que delas, ensiná-las a ver as coisas simples da vida. A serem felizes com o que temos!
Decidi deixar de esperar pelo carro para sairmos passear , levar ou buscar nossa pequena poodle Kakau à veterinária, comprar o pão para o café ou o sorvete que as crianças querem tomar. Coloquei a pequena Samara no carrinho de bebê, guardei a guia da Kakau em minha bolsa, segurei a mãozinha da Luiza e fomos buscar nosso bichinho de estimação, sentindo a temperatura amena do outono....
_ Que passeio gostoso, mamãe! Tá sentindo o ventinho?
_ Sim, meu amor! Está muito bom mesmo!
Guardei a imagem de seus rostinhos felizes em minha memória, bem guardados, para não fugirem. E pensei : _ Quando ela estiver, um dia, em seu carro com ar condicionado, quero lembrar-lhe o quanto eram bons os passeios a pé na avenida arborizada, na pequena cidade de interior, para que ela não se esqueça das pequenas e gratuitas coisas, q nos trazem grandes alegria, as quais dinheiro algum pode comprar.........

(Grazi)